Vida dos Santos
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14.11.2025

O que aprender com Santa Gertrudes?

PL
Equipe do Padre Leonardo Wagner
Formação Católica

Gertrudes nasceu na Alemanha em 1256, e quando contava apenas 5 anos de idade, foi entregue às monjas do mosteiro beneditino de Helfta. Ali não se encontravam mulheres ignorantes, mas muito cultas, formadas nas letras e nas artes, grandes mestras da vida espiritual, dedicadas ao estudo da Sagrada Escritura, do canto litúrgico e do silêncio.

Gertrudes cresceu nesse ambiente como uma predileta de Deus. As monjas perceberam logo sua inteligência vivíssima: ela se destacava nos estudos filosóficos, retóricos e bíblicos. Era dotada de memória extraordinária, escrita elegante e uma curiosidade ordenada, própria das almas chamadas por Deus para grandes coisas.

Apesar de toda essa preparação, faltava-lhe passar pela porta estreita. Erudição não serve para muita coisa se não eleva a alma para a união com Deus.

O encontro de nossa santa aconteceu por volta dos 25 anos, em 1281. As tradições de Helfta e os autores espirituais que narram sua vida concordam que este momento foi o grande divisor de águas na vida de Gertrudes. Ela não vivia uma vida de pecado, mas vivia uma vida espiritual medíocre, embora ordenada. 

Deus então iluminou seu intelecto e convidou sua vontade com uma graça tão profunda que sua alma passou da busca do saber para a busca da própria Sabedoria Encarnada.

A liturgia como fonte de santidade

É impossível contar a história de Santa Gertrudes sem falar de seu amor à liturgia. Dom Guéranger, também beneditino e grande restaurador da vida litúrgica no século XIX, faz questão de lembrar: praticamente todas as grandes experiências espirituais de Gertrudes aconteciam durante a oração litúrgica, especialmente durante o Ofício Divino.

Enquanto algumas almas encontram Deus em afastamento total do mundo, Gertrudes O encontrava no canto dos salmos e nas Santas Missas. O mosteiro de Helfta era, por assim dizer, uma escola de vida interior centrada na liturgia; e a própria oração da Igreja tornou-se o caminho pelo qual Cristo conduziu Santa Gertrudes às mais elevadas contemplações místicas.

Em sua obra "Legatus Divinae Pietatis", livro que reúne suas experiências, vê-se claramente que suas intuições espirituais surgiam enquanto meditava leituras; suas consolações apareciam no coro; seus entendimentos mais profundos sobre Deus estavam ligados às festas do ano litúrgico.

É opinião dos teólogos que Deus concede graças específicas em determinados tempos litúrgicos — e vemos isso concretizado na vida de Santa Gertrudes.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus

É também nesse ambiente de oração que aparece uma das marcas mais profundas de sua espiritualidade: a devoção ao Coração de Jesus. 

Ainda não havia a linguagem precisa das aparições a Santa Margarida Maria Alacoque, mas o mesmo conteúdo já estava ali: o Coração de Cristo como fonte de graça, como símbolo do amor divino, como lugar de refúgio para os pecadores.

Ela rezava todos os dias:

Saúdo-vos, ó Sagrado Coração de Jesus, fonte viva e vivicante da vida eterna, tesouro infinito da divindade, forno ardente do amor divino; sois o lugar do meu descanso e do meu asilo, ó meu amoroso Salvador! Enchei meu coração com o ardente amor que inflamai o Vosso Coração; derramai em meu coração as grandes graças das quais o Vosso é a fonte, e fazei meu coração tão unido ao Vosos que a vossa vontade seja minha, e a minha seja eternamente conformada com a Vossa, pois desejo que doravante a Vossa santa vontade seja a regra de todos os meus desejos e de todas as minhas ações. Amém!

A devoção às almas do Purgatório

Outro ponto fundamental da vida de Santa Gertrudes é sua caridade para com os fiéis defuntos. Diversos episódios narrados pelas monjas de Helfta mostram como Cristo lhe confiava almas necessitadas de oração, e como ela as entregava com confiança à misericórdia divina. Essa sensibilidade fez de Gertrudes uma poderosa intercessora das almas do Purgatório.

Nosso Senhor instruiu que rezasse a seguinte oração:

Eterno Pai, ofereço-Vos o Preciosíssimo Sangue de Vosso Divino Filho Jesus, em união com todas as Missas que hoje são celebradas em todo o mundo; por todas as santas almas do purgatório, pelos pecadores de todos os lugares, pelos pecadores de toda a Igreja, pelos de minha casa e por meus próximos. Amém.

A piedade popular acrescentou que esta oração libertaria mil almas do Purgatório a cada vez que fosse rezada, mas não há essa promessa nas revelações da santa, e há inclusive orientação do Magistério em sentido contrário, ou seja, de que nenhuma oração liberta determinado número de almas do Purgatório.

Legado espiritual

Santa Gertrudes permaneceu no mosteiro de Helfta até o fim de sua vida terrena.

A tradição afirma que ela morreu em 1301 ou 1302, provavelmente no dia 17 de novembro.

O Papa Bento XIV confirmou seu culto e o Papa Clemente XII concedeu-lhe o título de “Magna”, algo raríssimo, especialmente para uma santa não fundadora e não mártir. Esse título testemunha a estatura espiritual dessa monja beneditina, cuja vida tem muito a nos inspirar.

Uma de suas pinturas mais conhecidas nos transmite uma afirmação de Nosso Senhor a respeito dela: “No Coração de Gertrudes encontrareis o Meu Coração."

Peçamos a Santa Gertrudes, a Grande, que nos ensine a via do recolhimento; que nos guie no melhor aproveitamento da liturgia da Igreja; que nos conduza no caminho da virtude; que aumente nossa caridade para com as almas do Purgatório; e que faça nosso coração semalhente ao Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Santa Gertrudes, rogai por nós!

Referências:

Pe. Alban Butler. The Lives of the Saints, Benziger Bros, 1894.

Pe. João Batista Lehmann. Na luz perpétua. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1953.

Dom Prosper Guéranger. The Liturgical Year. 15 v. Loreto Publications, 2000.

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