
É útil ocasionalmente fazer uma meditação focada sobre algum aspecto da nossa salvação, da vida, da morte. Deus é infinito e não podemos compreender o infinito, então, nos aproximamos d'Ele por partes, aspectos do Ser. Ao considerar diferentes aspectos individualmente, como a misericórdia de Deus ou a justiça divina, teremos maior entendimento do todo.
É importante lembrar, ao ler sobre essas realidades, que elas são intencionalmente unilaterais. Elas não dão o quadro completo; apresentam apenas uma parte do todo. Agora, isso não significa que a parte apresentada não seja verdadeira. Ela é verdadeira, mas é apenas uma parte, entre outras considerações.
Textos como este podem deixar as pessoas preocupadas ou ansiosas, principalmente os escrupulosos.
Precisamos distinguir entre culpa boa e culpa má, boa ansiedade e má ansiedade: A culpa boa nos motiva a tentar mais e melhor; a culpa má nos deprime e nos faz pensar que não há motivo para melhorar, ela drena nossa energia. Então, se você sentir isso ao ler o texto abaixo, pare e vá ler outra coisa. Volte aqui quando estiver mais disposto.
Em uma família, o filho mais novo é aquele que nasceu por último. O celular mais novo do mercado é o que acabou de ser lançado. Assim, os novíssimos são as últimas coisas que acontecem na vida do homem: ele morre, é julgado, e sentenciado ao seu destino eterno.
Por isso, os novíssimos são quatro: morte, juízo, céu e inferno. Trazemos em seguida uma adaptação da meditação do Padre Cochem sobre o juízo.
Muitas coisas tornam a morte terrível para nós, e uma delas é o pensamento de que devemos comparecer diante do tribunal de Deus e prestar contas de tudo o que fizemos e deixamos de fazer. Quão terrível é esse julgamento aprendemos pelas palavras de São Paulo: ‘É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo’ (Hb 10).
Se temos medo de cair nas mãos de um homem irado na terra, quanto mais deveremos temer cair nas mãos de um Deus irado? Todos os santos tremiam na antecipação da sentença que lhes seria dada por Deus, pois sabiam muito bem quão extremamente severos são os Seus juízos.
O rei Davi diz: ‘Não entres em juízo com Teu servo, ó Senhor, pois à Tua vista nenhum homem vivo será justificado’ (Sl 143). Lemos também nas vidas dos Padres sobre o santo abade Agatão, que estava tomado de temor ao se aproximar o fim. Seus irmãos lhe disseram: ‘Por que havias de ter medo, venerável padre? Levaste uma vida tão piedosa.’ Mas ele respondeu: ‘Os juízos de Deus são muito diferentes dos juízos dos homens.’
O santo abade Elias também costumava dizer: ‘Três coisas eu temo: primeiro, temo o momento em que minha alma terá de deixar meu corpo; segundo, o momento em que devo comparecer diante do tribunal de Deus; terceiro, o momento em que minha sentença será pronunciada.’
Todos os homens bons e santos temeram o juízo de Deus. Aqueles que não o temem provam que sabem muito pouco sobre ele ou quase não meditaram sobre ele.
Consideremos que sensação nova e estranha será para nossa alma encontrar-se separada do corpo em um mundo desconhecido. Até agora ela só conheceu a existência terrena. Agora se encontrará no reino dos espíritos. Antes, a alma vivia no tempo; agora passou à eternidade. Agora, pela primeira vez, os olhos da alma se abrem e ela vê claramente o que é a eternidade, o que é o pecado, o que é a virtude; quão infinita e onipotente é a força de Deus; a dignidade superior da alma que Ele criou, e que nós tratamos com tanto desprezo pelo pecado.
Ficaremos petrificados de assombro. E ainda, estando nesse primeiro momento de maravilhamento, seremos rapidamente conduzidos diante do tribunal de Deus para prestar contas de todas as nossas ações. E o terror que nos tomará nesse momento ultrapassa nossa capacidade de descrever ou conceber.
Se um criminoso teme ser levado perante um juiz terreno, quanto mais nossa alma tremerá quando formos introduzidos na presença de um Deus rigoroso e onisciente e obrigados a prestar o mais minucioso relato de todos os nossos pensamentos, palavras, ações e omissões. O santo Jó reconhece isso quando diz: ‘Quem me concederá isto: que protejas minha alma no Sheol e me escondas até que Tua ira passe?’ Eis que até o estoico Jó preferiria jazer num fosso escuro a aparecer diante do rosto de um Deus irado.
Consideremos ainda em que forma apareceremos diante de nosso Juiz e como ficaremos confundidos por causa dos nossos pecados. Se um homem, como punição por seus atos maus, fosse sentenciado a ficar nu diante de uma multidão inteira, quanta vergonha sentiria! E mais: se alguma ferida repugnante e nojenta de seu corpo fosse assim exposta a todos, quão mais intensa seria sua vergonha! Mas assim será conosco quando estivermos perante nosso Juiz na presença de todos os santos anjos puros - despidos não no corpo, mas na alma. Lá, as feridas repugnantes e nojentas dos nossos pecados serão reveladas a todos.
Não cedemos, durante a vida, à ira, impaciência, vingança, ódio, inveja, orgulho, vaidade, sensualidade, preguiça, ganância, amor-próprio, avareza, mundanidade e malícia? Esses pecados, uma vez cometidos, não simplesmente desaparecem; eles aderem à alma e a desfiguram tão terrivelmente que, após a morte, ficaremos profundamente envergonhados da feiura que veremos em nós mesmos.
Consideremos de que maneira apareceremos diante de nosso onipotente Juiz, carregados de uma multidão de pecados e nesse estado de indescritível impureza. Lá estaremos, em Sua presença, na maior agonia e confusão. Sob nossos pés está o abismo do inferno; acima de nós está o semblante irado do Deus que tão frequentemente e tão descuidadamente ofendemos. Ao nosso lado estão os demônios, ansiosos por nos acusar; ao nosso redor estão os anjos, em toda a sua pureza. E ali, no meio de tudo isso, estamos nós, na sujeira dos nossos pecados. A exposição será intolerável, e ainda assim o ocultamento será impossível.
Sendo assim, o que nos convém fazer para não cair nesse estado infeliz? Arrependamo-nos dos nossos pecados, façamos uma confissão sincera, emendemos nossos caminhos e comecemos a pensar seriamente na salvação eterna. Enquanto ainda estamos com boa saúde, pensemos na morte e preparemo-nos para ela.
Não deixemos isso para a velhice ou para uma doença mortal. Não existe arte maior ou mais importante sobre a terra do que a arte de bem morrer. Dela depende toda a nossa eternidade - uma eternidade de felicidade incomparável ou de tormento insuportável. Um único julgamento, e apenas um, nos é concedido. Se não nos sairmos bem nesse único momento, tudo estará perdido.
Se não aprendemos durante a vida, enquanto somos fortes, a prática das virtudes, como poderemos praticá-las quando chegarem a velhice e a enfermidade? A menos que nos esforcemos continuamente para crescer no amor de Deus e no ódio ao pecado, devemos temer que toda a nossa vida não seja mais do que um processo contínuo de acrescentar culpa, vergonha e confusão ao nosso juízo final.
Preparemo-nos com frequência para a morte; sigamos o conselho dos santos; imitemos o amor deles por Nosso Senhor; esforcemo-nos por adquirir todas as virtudes; submetamo-nos à vontade de Deus Onipotente. É por esses meios que podemos esperar tornar-nos suficientes na arte de bem morrer e assim passar com êxito por aquela única prova que nos aguarda, da qual dependerá nosso destino eterno.
Pe. Martin von Chochem. The four last things: death, judgment, hell and heaven. New York: Benziger Brothers, 1899.