
Em 1205, nasceu a bela Isabel, flor do reino húngaro e joia prometida em casamento ao Landgrave Luís desde o berço. Filha do rei André e da rainha Gertrudes, conta-se que na noite de seu nascimento as torres de Sárospatak foram envoltas por um silêncio extraordinário, e alguns guardas juraram ter visto, sobre o castelo, uma luz semelhante à aurora, ainda que fosse alta madrugada.
Esses sinais, que só muito depois seriam lembrados, pareciam anunciar que a menina carregava desígnios mais elevados que a glória terrena.
Com apenas 4 anos, Isabel foi levada, como era costume entre os nobres, a terras longínquas para ser criada junto daqueles que seriam sua futura família. Deixou a Hungria entre prantos das damas e solene procissão dos nobres, mas a pequenina, envolta em véus e joias, olhava tudo com olhar sereno.
Ao chegar ao castelo de Wartburg, na Turíngia, foi recebida com muita pompa. Ali cresceu, educada nas letras, nas cortesanias e na oração. Desde muito cedo, mostrou singular inclinação às coisas de Deus. Quando outras crianças brincavam com fivelas de ouro ou pequenas espadas de madeira, ela preferia ajoelhar-se diante do oratório, rezando salmos como se conversasse com um amigo.
Não faltaram, no entanto, os olhares desconfiados. Alguns da corte julgavam-na excêntrica; outros, devota demais para ser rainha. Mas à medida que crescia, cresciam também sua graça e mansidão, e muitos corações se dobravam diante de sua simplicidade.
Quando completou 15 anos, foi celebrado seu matrimônio com Luís, príncipe da Turíngia, que contava 21 anos. O casamento realizou-se com todas as honras, mas o que mais causou admiração não foi a festa, nem os banquetes, nem a música: foi o amor verdadeiro que se formou entre os esposos. Ambos tratavam-se como irmãos em Cristo.
Luís, embora príncipe, era homem reto e sem vaidade. Via na esposa algo de celestial. Onde outros só percebiam exagero, ele via um amor santo que Deus nela cultivava. E, ao invés de diminuir o fervor, sustentava-o com carinho. Assim, enquanto Luís governava com justiça, Isabel governava com misericórdia.
Naqueles dias, era frequente vê-la abandonar discretamente o castelo para visitar idosos, viúvas, enfermos e órfãos. Vestia-os, alimentava-os, lavava suas chagas. E, quando a fome assolava as aldeias, usava tanto os recursos da corte que alguns conselheiros, indignados, a acusavam diante do príncipe. Mas Luís, sorrindo, respondia:
Antes mil cofres vazios do que um só pobre que clame contra nós diante do Altíssimo.
Houve, certa vez, o famoso prodígio das rosas.
Isabel descia da colina com o manto cheio de pães para os necessitados. Um cortesão, movido por inveja, insistiu para que revelasse o que carregava.
Quando ela abriu o tecido, não mais havia pães, mas rosas tão perfumadas que todos ficaram atônitos.
Santa Isabel fundou hospitais, orfanatos e uma padaria, a qual produzia 900 pães por dia para os pobres.
O tempo de paz, porém, é raro neste mundo. Veio o chamado para a Cruzada, e Luís, fiel ao senhor Bispo, teve de partir.
Luís foi, mas não chegou à Terra Santa. Uma febre maligna levou-o em território estrangeiro. Quando a notícia da morte chegou, Isabel chorou copiosamente, ela que havia acabado de dar à luz sua quarta filha.
A partir desse momento, as provações multiplicaram-se. Alguns parentes, ambicionando terras e riquezas, aproveitaram-se da fragilidade da jovem viúva. Ordenaram que deixasse o castelo, privaram-na de seus bens e tentaram afastá-la das obras de caridade.
Isabel aceitou tudo com mansidão heroica. Deu graças a Deus por poder experimentar um pouco da pobreza que sempre amara. Caminhou pelas ruas como uma das muitas mulheres necessitadas que antes ajudara, e encontrou nos franciscanos, recém-chegados de Assis, direção segura para sua alma ardente. Ela mesma já estava investida na Ordem Terceira de São Francisco e havia recebido do Pai Seráfico seu próprio manto.
As austeridades que praticava, unidas ao cansaço do serviço, minaram sua saúde. Por fim, sentiu que o dia se aproximava. Escreve o Padre Lehmann:
Apesar do doce aviso de Jesus Cristo, Isabel sentia o tremor na alma, lembrança de que em breve havia de comparecer na presença de Deus. Foi no dia 19 de novembro que Isabel fez a última confissão. Depois de ter conversado ainda com o confessor, assistiu à santa Missa que, no quarto, foi celebrada. Em seguida recebeu a Extrema-Unção e a Sagrada Comunhão.
Os lábios da agonizante abriram-se, e os assistentes ouviram sair da boca de Isabel uma doce harmonia. Era como se ao longe tocasse uma campainha ao pôr do sol.
“Não vistes os Anjos, que cantavam comigo?” — perguntou Isabel. — “Fiz o que pude para cantar com eles.”
Perto de meia-noite, o rosto de Isabel se tornou de tal modo resplandecente, que mal se podia encará-lo. A moribunda falou:
“Eis a hora em que a Virgem Maria deu ao mundo o Senhor. Falemos acerca de Deus e do Menino Jesus, pois está dando meia-noite. Eis a hora em que Jesus nasceu, em que foi deitado na manjedoura e em que criou uma nova estrela, nunca vista até então por ninguém! Eis a hora em que ressuscitou dos mortos e livrou as almas acorrentadas. Assim livrará também a minha alma deste mundo de misérias; que a receba em suas mãos! Estou fraca, mas não sinto dor alguma.”
Rezou em alta voz por todas as pessoas presentes e, por fim, disse:
“Oh! Maria, vinde em meu auxílio! Aproxima-se o momento em que Deus chama os amigos para as núpcias. Vem o Esposo buscar a esposa.”
Depois, em voz baixa: “Silêncio — silêncio!”
Ao dizer estas palavras, abaixou a cabeça, caindo como em doce sono, e rendeu triunfante o último suspiro. A alma de Isabel tinha tomado o voo para o Céu, e no mesmo instante encheu-se a casa de um delicioso perfume, e nos ares ouviu-se a doce harmonia de vozes celestiais.
Poucos anos depois, a Igreja reconheceu oficialmente o que o povo já sabia: Isabel fora santa em vida, mártir da caridade, modelo de humildade para os poderosos, e socorro para os fracos. Sua sepultura tornou-se lugar de peregrinação, e muitos milagres foram narrados em honra daquela que jamais negou auxílio a quem o buscava.
Até hoje, passa de geração em geração a lembrança de seu rosto luminoso e de suas mãos que cuidavam: um exemplo perfeito para as mulheres do século XXI. Santa Isabel viveu somente para Deus, e seu foco no único necessário a impelia amar os próximos, enxergando neles o próprio Cristo.
Pe. Alban Butler. The Lives of the Saints, Benziger Bros, 1894.
Pe. João Batista Lehmann. Na luz perpétua. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1953.