
Neste último dia da oitava da Epifania do Senhor, a Santa Madre Igreja nos faz comemorar outra das três manifestações de Deus contidas na primeira festa. Expliquemo-nos. Na primeira epifania, Cristo foi revelado aos Magos, que vieram de longe para adorá-lo. A sua divindade foi plenamente revelada a esses povos pagãos, que agora, na presença de Jesus, tornaram-se seus seguidores, tornaram-se cristãos. Os Magos representam as primícias das nações gentias, chamadas à luz pela estrela e conduzidas até o Rei dos reis.
Depois, há uma outra Epifania, a que ocorreu durante as bodas de Caná, quando Jesus manifestou a sua glória — como diz o Evangelho —, o que aconteceu quando Jesus revelou a sua divindade, porque transformou aquela água em vinho. E, desse modo, inaugurou a hora do seu ministério, a hora da sua paixão e da sua morte. Em Caná, o Esposo divino manifesta, pela primeira vez, o poder criador de sua palavra, e os seus discípulos creram nele.
Finalmente, há uma terceira Epifania, a que agora celebramos: o Batismo de Nosso Senhor. É uma manifestação da identidade de Jesus Cristo. Recordamos o contexto deste mistério: Jesus, que estava no rio Jordão, ia ser batizado por João Batista. E, assim que Jesus entrou no rio Jordão, houve uma voz que vinha do alto, do Céu, a voz do Pai atestando a divindade do Filho: “Este é o meu Filho amado, escutai-o”. O Jordão estremece ao contato do Criador; as águas reconhecem aquele que as criou e recebem dele a virtude de santificar.
Houve também uma outra revelação importante: o Espírito Santo descendo como uma pomba e repousando sobre Jesus Cristo. A pomba, símbolo do Espírito Santo.
Há uma Epifania trinitária no Batismo de Nosso Senhor. Jesus é revelado como o Filho, o Pai fala do Céu, e o Pai envia o Espírito Santo. Neste mistério sublime, a Santíssima Trindade manifesta-se ao mundo: o Pai na voz, o Filho na carne, o Espírito Santo na forma sensível.
O Espírito Santo, repousando sobre Jesus, atesta que este é o Filho e também que Ele está plenamente consagrado como o verdadeiro Messias para iniciar o seu ministério público. O batismo de João, aquele que João administrou a Jesus, era, de fato, apenas simbólico desse início oficial do ministério de Jesus como o verdadeiro Messias, o Filho de Deus, o Redentor. João conferiu um batismo de penitência; Cristo, descendo às águas, preparou o batismo que regeneraria o mundo.
Ao considerarmos a Epifania de Nosso Senhor neste Batismo, somos também chamados a refletir sobre o nosso próprio batismo como uma epifania: o modo como Deus se manifestou a nós e como nos foi concedida uma graça muito singular, a de sermos adotados como filhos em Cristo.
A manifestação do Batismo de Jesus como Filho, como Redentor, é também, para cada um de nós, a oportunidade de voltar ao momento do nosso próprio batismo e de recordar esse dia, de viver novamente esse momento espiritualmente, quando o mistério da Santíssima Trindade foi revelado à nossa vida pela água daquele Sacramento.
O mesmo Espírito que repousou sobre Cristo é comunicado às almas, para nelas formar filhos adotivos de Deus. Pelo Espírito Santo, em Cristo, tornamo-nos filhos do Pai, filhos de Deus, adotados como filhos.
Portanto, hoje concentremo-nos nesta verdade: o Batismo como revelação de Cristo, o Batismo como o modo pelo qual fomos adotados como filhos, porque Deus nos foi revelado em Cristo. Você se lembra do dia em que foi batizado? A maioria dos cristãos não se lembra. Mas essa data é mais importante do que o seu aniversário, porque é o momento em que você nasceu para a eternidade, para a vida eterna, ao tornar-se filho de Deus.
Dom Guéranger diz que é no Batismo que o cristão começa verdadeiramente a sua vida; tudo o mais é preparação para este nascimento sobrenatural.
Procuremos fazer um esforço para recordar o dia do nosso batismo, a fim de podermos celebrá-lo. E, na Epifania de Jesus no rio Jordão, alegremo-nos, porque esta Epifania é também salvação e glória eterna em Cristo.
Rezemos hoje à nossa Santíssima Mãe Maria para que nos ajude a compreender profundamente o mistério do Batismo e a agradecer sempre a Deus por esta graça imensa que recebemos.
Dom Prosper Guéranger. The Liturgical Year. 15 v. Loreto Publications, 2000.