
As virtudes cardeais recebem esse nome por causa do significado do termo “cardeal”, que vem do latim "cardo, cardinis", cujo sentido principal é “eixo”. A ideia central é a seguinte: assim como as coisas giram em torno do eixo, toda a vida moral gira em torno dessas virtudes.
Na filosofia moral da Antiguidade já se reconhecia que certas virtudes eram fundamentais para ordenar a conduta humana. Quando o pensamento cristão assimilou essa tradição, manteve o conceito e o nome.
Elas são chamadas “cardeais” porque sustentam as demais virtudes morais; ordenam a ação humana de modo estável; e funcionam como princípios estruturantes da vida ética. Tradicionalmente, elas são quatro: prudência – orienta a razão prática e governa as decisões; justiça – regula as relações com o próximo; fortaleza – dá firmeza diante das dificuldades; e temperança – modera os apetites e paixões.
Santo Tomás diz que há três maneiras pelas quais a fortaleza pode ser considerada.
A primeira é tomada em sentido estrito, que é aquilo que normalmente associamos à palavra coragem. Trata-se da capacidade de enfrentar o árduo. Assim, a definição geral é: a disposição de enfrentar aquilo que é difícil para alcançar um fim. Santo Tomás diz que, nesse sentido estrito, a fortaleza diz respeito, em última análise, à pessoa que está disposta a ir à batalha e morrer nela. Esse é o sentido mais restrito da virtude da fortaleza.
Há um sentido mais amplo da fortaleza, e isso tem a ver com tudo aquilo que é árduo, isto é, difícil de suportar ou de alcançar. Trata-se da disposição de enfrentar o árduo, e isso pode se aplicar praticamente a qualquer coisa.
E às vezes, a fortaleza é tomada simplesmente como virtude em geral, pois toda virtude nos ajuda a enfrentar coisas difíceis.
Há ainda dois tipos de virtudes: a virtude natural da fortaleza e a virtude sobrenatural da fortaleza. A virtude natural tem como objeto o árduo em nível natural: coisas fisicamente árduas ou mentalmente difíceis, e assim por diante. Trata-se de algo puramente natural.
A virtude sobrenatural tem como objeto último Deus e aquelas coisas que nos ajudam a alcançá-l'O. Assim, ela envolve enfrentar coisas muito difíceis. De fato, a vida espiritual em si é muito árdua; mesmo quando se recebe uma graça, geralmente isso torna as coisas mais difíceis, embora, quando a pessoa se torna mais proficiente, fique um pouco mais fácil.
Uma das sub-virtudes da virtude sobrenatural da fortaleza é o martírio. A Igreja ensina formalmente que, para realizar esse ato da virtude sobrenatural da fortaleza, é necessária uma graça específica, não apenas uma graça ordinária. É uma graça especial que Deus deve conceder para que a pessoa possa sustentar a morte por causa de Deus.
Como a fortaleza lida com coisas árduas e difíceis, ela reside no apetite irascível. Trata-se da virtude pela qual alguém está disposto a enfrentar o árduo. Esse ponto é importante, porque significa que precisamos desenvolver o apetite irascível. É o apetite que nos permite enfrentar coisas como a ira e a audácia; é esse apetite que nos inclina a alcançar algo difícil.
Santo Tomás diz que o apetite concupiscível (no qual reside a temperança) inclina-nos ao bem em geral, normalmente aos bens corporais. Como resultado disso, temos inclinações à comida, às relações conjugais etc. Mas também podemos treinar o apetite concupiscível a desejar coisas para as quais ele não está naturalmente inclinado, como querer possuir um determinado automóvel, uma casa, e assim por diante. Uma casa, estritamente falando, não satisfaz diretamente uma faculdade natural, mas podemos treinar o apetite concupiscível para desejá-la.
Isso também explica por que, quando fazemos escolhas ruins, podemos treinar o apetite concupiscível a desejar coisas desordenadas ou contrárias à razão. As pessoas podem, de fato, criar desejos por coisas como ferir ou mutilar outros; esses desejos podem acabar sendo desenvolvidos.
O mecanismo é o seguinte: o intelecto percebe que há um bem que eu quero alcançar como, por exemplo, uma coxa de frango sobre a mesa. Mas se há um cachorro grande parado na minha frente, impedindo-me de pegar a comida, o cachorro é o árduo que me impede de obter o sanduíche. Santo Tomás diz que o apetite concupiscível deseja o objeto; mas, se ele não pode obtê-lo imediatamente, ou se a obtenção é difícil, então surge o apetite irascível para perseguir o objeto.
Assim, o apetite irascível lida com os meios para alcançar o fim. Quando você finalmente obtém aquilo pelo qual o apetite lutava, ele descansa no prazer. Em nosso exemplo, engana-se o cachorro, o qual vai atrás de outra coisa, e então se como o sanduíche.
O apetite irascível sempre diz respeito aos meios; o concupiscível, ao fim. Por isso, a busca do árduo é sempre temporária. Uma vez que chegarmos ao céu, tudo será fácil. Parte do apetite irascível é a ira. Quando ficamos irados, uma vez que obtemos a vindicação ficamos satisfeitos e temos prazer em ver que a pessoa “teve o que merecia”, e então deixamos de ficar irados.
A virtude da prudência possui partes integrais, o que significa que se uma pessoa não possui essas partes integrais, ela não possui a prudência. Diferentemente ocorre com a fortaleza, a qual não possui partes integrais, mas apenas partes subjetivas, significando que uma pessoa pode ter a virtude da fortaleza sem possuir essas partes integrais (ou sub-virtudes) plenamente desenvolvidas.
A primeira sub-virtude é a magnanimidade, palavra que vem do grego e significa desejar coisas grandes. A magnanimidade é a virtude pela qual a pessoa busca a excelência.
Santo Tomás diz que a magnanimidade é a virtude que busca a excelência em todas as coisas, especialmente nas coisas grandes. O homem magnânimo é aquele que se dispõe a enfrentar dificuldades maiores do que aquelas que a média das pessoas enfrenta. A acídia ou preguiça espiritual é quando alguém, diante de uma tarefa árdua, recua e não a realiza.
O Doutor Angélico observa que a magnanimidade, em certo sentido, é quase idêntica à própria virtude, pois o homem magnânimo busca constantemente a perfeição em todas as virtudes.
A seguir vem a magnificência. Ela vem do latim e significa fazer coisas grandes. Trata-se da virtude pela qual a pessoa usa seus recursos financeiros para realizar grandes obras. Evidentemente, nem todos podem desenvolvê-la; o pobre não pode, porque não tem meios.
Exemplos: financiar a construção de um mosteiro, de uma igreja, de um monumento, ou sustentar obras que beneficiem amplamente a sociedade. Um sinal do problema atual na Igreja é a falta de magnificência na construção de igrejas: pensa-se apenas no que é funcional e rápido, não no que é grande e duradouro. No passado, igrejas levavam décadas para serem construídas, justamente porque se buscava algo verdadeiramente grandioso.
O vício oposto é a mesquinhez (parvificentia): a pessoa que faz apenas coisas pequenas com seu dinheiro, mais preocupada em acumulá-lo do que em usá-lo para grandes obras.
Depois vem a paciência. A paciência não é simplesmente esperar num sinal vermelho, mas é a virtude pela qual se suportam os males com equanimidade. Quando coisas ruins acontecem, a pessoa não se perturba; reconhece que Deus permite aquele sofrimento e o suporta bem.
Paciência significa manter a paz interior diante do mal. Não é indiferença, mas estabilidade da alma. Isso exige lembrar que Deus é o Senhor da história e governa todas as circunstâncias. Até pequenas contrariedades — como ter que esperar no sinal vermelho — podem ser ocasiões para desenvolver essa virtude.
Há também a perseverança, que é a virtude pela qual alguém persiste no bem árduo até alcançar o fim. Muitas pessoas desistem quando algo se torna difícil ou demorado. A perseverança combate essa tendência.
A longanimidade significa espera de alma, isto é, a capacidade de esperar pelo bem. Diferente da paciência, que sofre o mal, a longanimidade aguarda o bem. A falta dessa virtude é visível na cultura do imediatismo.
Depois vem a mortificação, que significa fazer morrer. É a virtude pela qual a pessoa está disposta a sofrer, a renunciar ao prazer, a dominar os apetites desordenados. Por causa do pecado original, temos horror ao sofrimento; a mortificação exige que a razão seja forte e mantenha o curso, apesar da resistência dos apetites.
A fortaleza também regula certos vícios contrários: medo excessivo covardia, temeridade ou ausência de medo quando ele seria devido, audácia excessiva, presunção, ambição desordenada, vanglória, pusilanimidade, mesquinhez, moleza ou efeminação e pertinácia, que é apego excessivo às próprias opiniões.
Por fim, parte da fortaleza consiste justamente em saber conter o apetite irascível, para que ele se afirme apenas na medida devida, nem mais nem menos.
Peçamos a São José fortíssimo e a Nossa Senhora, Torre de Marfim, que nos alcancem de Deus essa virtude cardeal e que nos faça grandes santos!
Santo Tomás de Aquino. The Summa Theologiæ of St. Thomas Aquinas. 2. ed. rev. 1920. Online Edition by Kevin Knight. Disponível em: https://www.newadvent.org/summa/.