Doutrina
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30.12.2025

A virtude cardeal da Fortaleza

PL
Equipe do Padre Leonardo Wagner
Formação Católica

As virtudes cardeais recebem esse nome por causa do significado do termo “cardeal”, que vem do latim "cardo, cardinis", cujo sentido principal é “eixo”. A ideia central é a seguinte: assim como as coisas giram em torno do eixo, toda a vida moral gira em torno dessas virtudes.

Na filosofia moral da Antiguidade já se reconhecia que certas virtudes eram fundamentais para ordenar a conduta humana. Quando o pensamento cristão assimilou essa tradição, manteve o conceito e o nome.

Elas são chamadas “cardeais” porque sustentam as demais virtudes morais; ordenam a ação humana de modo estável; e funcionam como princípios estruturantes da vida ética. Tradicionalmente, elas são quatro: prudência – orienta a razão prática e governa as decisões; justiça – regula as relações com o próximo; fortaleza – dá firmeza diante das dificuldades; e temperança – modera os apetites e paixões.

Santo Tomás diz que há três maneiras pelas quais a fortaleza pode ser considerada.

A primeira é tomada em sentido estrito, que é aquilo que normalmente associamos à palavra coragem. Trata-se da capacidade de enfrentar o árduo. Assim, a definição geral é: a disposição de enfrentar aquilo que é difícil para alcançar um fim. Santo Tomás diz que, nesse sentido estrito, a fortaleza diz respeito, em última análise, à pessoa que está disposta a ir à batalha e morrer nela. Esse é o sentido mais restrito da virtude da fortaleza.

Há um sentido mais amplo da fortaleza, e isso tem a ver com tudo aquilo que é árduo, isto é, difícil de suportar ou de alcançar. Trata-se da disposição de enfrentar o árduo, e isso pode se aplicar praticamente a qualquer coisa.

E às vezes, a fortaleza é tomada simplesmente como virtude em geral, pois toda virtude nos ajuda a enfrentar coisas difíceis.

Virtude natural e sobrenatural

Há ainda dois tipos de virtudes: a virtude natural da fortaleza e a virtude sobrenatural da fortaleza. A virtude natural tem como objeto o árduo em nível natural: coisas fisicamente árduas ou mentalmente difíceis, e assim por diante. Trata-se de algo puramente natural.

A virtude sobrenatural tem como objeto último Deus e aquelas coisas que nos ajudam a alcançá-l'O. Assim, ela envolve enfrentar coisas muito difíceis. De fato, a vida espiritual em si é muito árdua; mesmo quando se recebe uma graça, geralmente isso torna as coisas mais difíceis, embora, quando a pessoa se torna mais proficiente, fique um pouco mais fácil.

Uma das sub-virtudes da virtude sobrenatural da fortaleza é o martírio. A Igreja ensina formalmente que, para realizar esse ato da virtude sobrenatural da fortaleza, é necessária uma graça específica, não apenas uma graça ordinária. É uma graça especial que Deus deve conceder para que a pessoa possa sustentar a morte por causa de Deus.

Os dois apetites

Como a fortaleza lida com coisas árduas e difíceis, ela reside no apetite irascível. Trata-se da virtude pela qual alguém está disposto a enfrentar o árduo. Esse ponto é importante, porque significa que precisamos desenvolver o apetite irascível. É o apetite que nos permite enfrentar coisas como a ira e a audácia; é esse apetite que nos inclina a alcançar algo difícil.

Santo Tomás diz que o apetite concupiscível (no qual reside a temperança) inclina-nos ao bem em geral, normalmente aos bens corporais. Como resultado disso, temos inclinações à comida, às relações conjugais etc. Mas também podemos treinar o apetite concupiscível a desejar coisas para as quais ele não está naturalmente inclinado, como querer possuir um determinado automóvel, uma casa, e assim por diante. Uma casa, estritamente falando, não satisfaz diretamente uma faculdade natural, mas podemos treinar o apetite concupiscível para desejá-la.

Isso também explica por que, quando fazemos escolhas ruins, podemos treinar o apetite concupiscível a desejar coisas desordenadas ou contrárias à razão. As pessoas podem, de fato, criar desejos por coisas como ferir ou mutilar outros; esses desejos podem acabar sendo desenvolvidos.

O mecanismo é o seguinte: o intelecto percebe que há um bem que eu quero alcançar como, por exemplo, uma coxa de frango sobre a mesa. Mas se há um cachorro grande parado na minha frente, impedindo-me de pegar a comida, o cachorro é o árduo que me impede de obter o sanduíche. Santo Tomás diz que o apetite concupiscível deseja o objeto; mas, se ele não pode obtê-lo imediatamente, ou se a obtenção é difícil, então surge o apetite irascível para perseguir o objeto.

Assim, o apetite irascível lida com os meios para alcançar o fim. Quando você finalmente obtém aquilo pelo qual o apetite lutava, ele descansa no prazer. Em nosso exemplo, engana-se o cachorro, o qual vai atrás de outra coisa, e então se como o sanduíche.

O apetite irascível sempre diz respeito aos meios; o concupiscível, ao fim. Por isso, a busca do árduo é sempre temporária. Uma vez que chegarmos ao céu, tudo será fácil. Parte do apetite irascível é a ira. Quando ficamos irados, uma vez que obtemos a vindicação ficamos satisfeitos e temos prazer em ver que a pessoa “teve o que merecia”, e então deixamos de ficar irados.

As partes subjetivas da fortaleza

A virtude da prudência possui partes integrais, o que significa que se uma pessoa não possui essas partes integrais, ela não possui a prudência. Diferentemente ocorre com a fortaleza, a qual não possui partes integrais, mas apenas partes subjetivas, significando que uma pessoa pode ter a virtude da fortaleza sem possuir essas partes integrais (ou sub-virtudes) plenamente desenvolvidas.

Magnanimidade

A primeira sub-virtude é a magnanimidade, palavra que vem do grego e significa desejar coisas grandes. A magnanimidade é a virtude pela qual a pessoa busca a excelência.

Santo Tomás diz que a magnanimidade é a virtude que busca a excelência em todas as coisas, especialmente nas coisas grandes. O homem magnânimo é aquele que se dispõe a enfrentar dificuldades maiores do que aquelas que a média das pessoas enfrenta. A acídia ou preguiça espiritual é quando alguém, diante de uma tarefa árdua, recua e não a realiza.

O Doutor Angélico observa que a magnanimidade, em certo sentido, é quase idêntica à própria virtude, pois o homem magnânimo busca constantemente a perfeição em todas as virtudes.

Magnificência

A seguir vem a magnificência. Ela vem do latim e significa fazer coisas grandes. Trata-se da virtude pela qual a pessoa usa seus recursos financeiros para realizar grandes obras. Evidentemente, nem todos podem desenvolvê-la; o pobre não pode, porque não tem meios.

Exemplos: financiar a construção de um mosteiro, de uma igreja, de um monumento, ou sustentar obras que beneficiem amplamente a sociedade. Um sinal do problema atual na Igreja é a falta de magnificência na construção de igrejas: pensa-se apenas no que é funcional e rápido, não no que é grande e duradouro. No passado, igrejas levavam décadas para serem construídas, justamente porque se buscava algo verdadeiramente grandioso.

O vício oposto é a mesquinhez (parvificentia): a pessoa que faz apenas coisas pequenas com seu dinheiro, mais preocupada em acumulá-lo do que em usá-lo para grandes obras.

Paciência 

Depois vem a paciência. A paciência não é simplesmente esperar num sinal vermelho, mas é a virtude pela qual se suportam os males com equanimidade. Quando coisas ruins acontecem, a pessoa não se perturba; reconhece que Deus permite aquele sofrimento e o suporta bem.

Paciência significa manter a paz interior diante do mal. Não é indiferença, mas estabilidade da alma. Isso exige lembrar que Deus é o Senhor da história e governa todas as circunstâncias. Até pequenas contrariedades — como ter que esperar no sinal vermelho — podem ser ocasiões para desenvolver essa virtude.

Perseverança, longanimidade e mortificação

Há também a perseverança, que é a virtude pela qual alguém persiste no bem árduo até alcançar o fim. Muitas pessoas desistem quando algo se torna difícil ou demorado. A perseverança combate essa tendência.

A longanimidade significa espera de alma, isto é, a capacidade de esperar pelo bem. Diferente da paciência, que sofre o mal, a longanimidade aguarda o bem. A falta dessa virtude é visível na cultura do imediatismo.

Depois vem a mortificação, que significa fazer morrer. É a virtude pela qual a pessoa está disposta a sofrer, a renunciar ao prazer, a dominar os apetites desordenados. Por causa do pecado original, temos horror ao sofrimento; a mortificação exige que a razão seja forte e mantenha o curso, apesar da resistência dos apetites.

Vícios contrários à fortaleza

A fortaleza também regula certos vícios contrários: medo excessivo covardia, temeridade ou ausência de medo quando ele seria devido, audácia excessiva, presunção, ambição desordenada, vanglória, pusilanimidade, mesquinhez, moleza ou efeminação e pertinácia, que é apego excessivo às próprias opiniões.

Por fim, parte da fortaleza consiste justamente em saber conter o apetite irascível, para que ele se afirme apenas na medida devida, nem mais nem menos.

Peçamos a São José fortíssimo e a Nossa Senhora, Torre de Marfim, que nos alcancem de Deus essa virtude cardeal e que nos faça grandes santos!

Referências:

Santo Tomás de Aquino. The Summa Theologiæ of St. Thomas Aquinas. 2. ed. rev. 1920. Online Edition by Kevin Knight. Disponível em: https://www.newadvent.org/summa/.

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