
Ontem comemoramos o Batismo do Senhor e isso deu-nos uma ocasião para pensarmos em nosso próprio batismo e seus efeitos. Não importa tanto quem somos, onde vivemos ou em que tempo vivemos; o que realmente importa é como morremos; se morremos com a graça santificante, que é o bem mais importante neste mundo e no mundo futuro. É essa graça que nos torna amigos de Deus e herdeiros da vida eterna, e nós a recebemos por meio dos sacramentos, começando pelo Batismo.
O Batismo é o primeiro sacramento que recebemos e, por isso mesmo, o primeiro que nos concede a graça santificante. Ele dá vida à alma. Assim como, na ordem natural, uma criança entra na vida pelo nascimento, na ordem sobrenatural a alma entra na vida pelas águas do Batismo. Antes disso, somos inimigos de Deus. São Paulo ensina que nascemos filhos da ira, e sem o Batismo a alma permanece morta para a vida sobrenatural.
O Batismo é o primeiro dos sete sacramentos e o mais importante, porque é necessário para a salvação. Nosso Senhor declarou a Nicodemos que, se alguém não nascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no Reino dos Céus. Embora exista o Batismo de sangue e o Batismo de desejo, esse é um tema distinto e não altera a obrigação ordinária de receber o Batismo sacramental.
Segundo São Boaventura, Nosso Senhor instituiu o sacramento materialmente quando foi batizado por São João Batista no rio Jordão. Posteriormente, instituiu a forma do sacramento quando ordenou aos Apóstolos que fossem e ensinassem todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Cristo não precisava ser batizado, pois é Deus e vive em perfeita amizade com o Pai. Como ensina Santo Tomás de Aquino, o contato do Corpo de Cristo conferiu às águas uma força santificadora, não apenas naquele momento, mas para todos os tempos, tornando-as instrumento da vida sobrenatural.
Todo sacramento possui matéria e forma. No Batismo, a matéria é a água, aquilo que naturalmente entendemos como água, e não qualquer outro líquido. A forma são as palavras:
Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.
A palavra “nome” está no singular, porque se refere a um só Deus, ainda que confessemos as três Pessoas da Santíssima Trindade. A mesma pessoa que pronuncia as palavras é a que deve derramar a água sobre a pele daquele que está sendo batizado, no mesmo momento em que derrama a água.
Os efeitos do Batismo são profundos: ele apaga o pecado original e todo pecado atual, seja mortal ou venial, em quem já alcançou o uso da razão. Remove toda pena e castigo devidos ao pecado, de modo que, se alguém morre imediatamente após o Batismo, entra diretamente no Céu, sem necessidade de passar pelo Purgatório. Além disso, o Batismo enche a alma da graça santificante, torna-nos agradáveis a Deus e infunde os dons do Espírito Santo, as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, bem como as virtudes cardeais infusas da prudência, da justiça, da fortaleza e da temperança.
O Batismo imprime na alma um caráter indelével, que jamais pode ser apagado, razão pela qual não pode ser repetido. Apenas quem ainda não foi batizado pode recebê-lo. Quando há dúvida, realiza-se o Batismo de forma condicional. O Batismo é absolutamente necessário para a salvação, e por isso a Igreja concede a qualquer pessoa, em caso de emergência, o poder de batizar, desde que tenha o uso da razão e a intenção de fazer o que a Igreja faz.
Essa necessidade impõe uma grave obrigação aos pais de não retardarem o Batismo das crianças sem motivo sério, pois morrer sem o Batismo é morrer sem a graça santificante. Em situações de emergência, deve-se agir sem demora, usando água e pronunciando corretamente a fórmula sacramental. Todos os católicos deveriam conhecer e memorizar essa fórmula, conscientes de que se trata de um sacramento necessário para a salvação.
Em conclusão, a graça santificante é o bem mais importante da vida humana, pois quando morremos, levamos conosco apenas a graça e as virtudes. O Batismo é o meio ordinário pelo qual essa graça nos é concedida, tornando possível a vida sobrenatural e a aquisição de méritos pela prática das virtudes. Por isso, a Igreja sempre ensinou que o Batismo é absolutamente necessário para a salvação e deve ser tratado com a máxima reverência, zelo e prontidão.
Lembremo-nos da data do nosso próprio batismo e sejamos gratos ao Bom Deus e a todos os envolvidos no sacramento que recebemos: o ministro, os padrinhos, nossos pais, que nos levaram à fonte batismal e nos deram o bem mais precioso de nossas vidas: a graça santificante.
Catecismo da Igreja Católica: Promulgado pelo Sacrossanto Concílio de Trento. Rio de Janeiro, Ed. CDB, 2024.