Espiritualidade
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21.11.2025

Um relato da Apresentação de Maria Santíssima no Templo

PL
Equipe do Padre Leonardo Wagner
Formação Católica

A Sagrada Escritura nada nos conta acerca da apresentação da Rainha dos Céus no Templo, mas uma grande mística espanhola do século XVII nos relata o que se passou naquele dia, de acordo com o que lhe foi revelado pelo Altíssimo. 

Sabendo que não se trata da inerrante Palavra de Deus, podemos, contudo, apreciar seus escritos e alimentar nossa devoção com eles.

Arca da Aliança: figura de Maria Santíssima

Em sua extensa obra “Mística Cidade de Deus”, a Venerável Madre Maria de Jesus de Ágreda aponta que, entre as figuras que prefiguravam a Santíssima Maria, nenhuma foi mais explícita do que a arca da aliança — tanto pela matéria de que era feita, como pelo que continha em si e pelo fim a que servia o povo de Deus, além de todas as coisas que, por meio da arca, com ela e através dela, o próprio Senhor realizava naquela antiga Sinagoga. 

Tudo isso, segundo nossa madre mística, era um esboço desta Senhora e daquilo que por Ela e com Ela havia de operar na nova Igreja do Evangelho.

A matéria de cedro incorruptível, com que foi construída, assinala claramente nossa arca mística, Maria, livre da corrupção do pecado atual e da mancha oculta do pecado original.

O ouro finíssimo e puríssimo que a revestia por dentro e por fora representa o que há de mais perfeito e elevado na graça e nos dons que resplandeciam em seus pensamentos divinos, em suas obras e costumes, em seus hábitos e potências; de tal modo que, ao contemplar o interior e o exterior desta arca, não se podia perceber parte, tempo ou momento em que não estivesse toda cheia e revestida de graça — e de graça de quilates altíssimos.

Em todas as suas trasladações, a antiga arca da aliança era levada com pública veneração e com soleníssimo culto de músicas, danças, sacrifícios e júbilo, tanto por parte daqueles reis como de todo o povo de Israel.

Mas a nossa arca mística e verdadeira, Maria Santíssima — embora fosse a mais rica, estimável e digna de veneração entre todas as criaturas — não foi conduzida ao templo com tão solene aparato e ostentação pública; não houve nessa misteriosa trasladação sacrifícios de animais, nem a pompa real e majestade de uma Rainha. 

Ao contrário: foi trasladada da casa de seu pai, Joaquim, nos braços humildes de sua mãe, Ana, que nesta ocasião levou sua querida Filha para apresentá-la e depositá-la no templo com humilde recato, como pobre, sozinha e sem qualquer ostentação popular.

Toda a glória e majestade desta procissão quis o Altíssimo que fosse invisível e divina; porque os sacramentos e mistérios da Santíssima Maria foram tão elevados e ocultos que muitos deles permanecem velados até hoje, devido aos insondáveis juízos do Senhor, que tem determinado o tempo e a hora para todas as coisas e para cada uma delas.

A apresentação

Narra a Venerável Madre que, cumprido o tempo dos três anos de idade determinados pelo Senhor, partiram de Nazaré Joaquim e Ana, acompanhados por alguns parentes, levando consigo a verdadeira arca viva da aliança, a Santíssima Maria, nos braços de sua mãe, para depositá-la no Templo de Jerusalém.

Ia essa humilde procissão só de criaturas terrenas e sem qualquer ostentação visível; mas vinha acompanhada ilustre e abundantemente por espíritos angélicos, que tinham descido do Céu para celebrar esta festa, além dos anjos ordinários que guardavam sua Menina Rainha. 

Chegaram ao Templo, e Sant’Ana, para entrar nele com sua Filha e Senhora, levou-a pela mão, assistidas particularmente por São Joaquim; e os três fizeram devota e fervorosa oração ao Senhor: os pais oferecendo-Lhe sua Filha, e a Filha santíssima oferecendo-Se a Si mesma com profunda humildade, adoração e reverência.

Terminada a oração, levantaram-se e foram ao sacerdote, a quem os pais entregaram sua Filha, a Menina Maria. O sacerdote deu-lhe sua bênção; e juntos a conduziram a um aposento onde estava o colégio das donzelas que ali viviam em recolhimento e santos costumes, até chegarem à idade de contrair matrimônio. Especialmente se recolhiam ali as primogênitas da tribo real de Judá e da tribo sacerdotal de Levi.

A entrada no templo

A entrada desse colégio tinha quinze degraus, conforme teria sido revelado à concepcionista de Ágreda; e ali saíram outros sacerdotes para receber a bendita Menina Maria. Aquele que a levava colocou-a no primeiro degrau. 

Ela pediu-lhe licença e, voltando-se para seus pais, Joaquim e Ana, ajoelhando-se, pediu-lhes a bênção e beijou a mão de cada um, rogando-lhes que a recomendassem a Deus.

Os santos pais, com grande ternura e lágrimas, derramaram suas bênçãos sobre Ela; e, recebendo-as, subiu sozinha os quinze degraus com incomparável fervor e alegria, sem voltar a cabeça, sem derramar lágrima, sem fazer gesto infantil ou demonstrar sentimento pela despedida dos pais; antes, pôs a todos em admiração ao vê-la, em tão tenra idade, com tamanha majestade e firmeza extraordinária. 

Os sacerdotes a receberam e a levaram ao colégio das demais virgens; e São Simeão, Sumo Sacerdote, entregou-a às mestras — entre as quais estava a profetisa Ana.

Essa santa matrona havia sido prevenida com especial graça e luz do Altíssimo para encarregar-se daquela Menina de Joaquim e Ana; e assim o fez por divina disposição, merecendo, por sua santidade e virtudes, ter por discípula Aquela que havia de ser Mãe de Deus e mestra de todas as criaturas.

Os pais, Joaquim e Ana, retornaram a Nazaré cheios de dor e empobrecidos, por terem deixado o rico tesouro de sua casa; mas o Altíssimo os confortou e consolou nela. O santo sacerdote Simeão, embora naquela ocasião não conhecesse o mistério encerrado na Menina Maria, recebeu, no entanto, grande luz de que Ela era santa e escolhida do Senhor; e os demais sacerdotes também sentiram a seu respeito profunda reverência e admiração.

Naquela escada que a Menina subiu realizou-se, com toda propriedade, o que Jacó vira na sua (Gn 28, 12): anjos subiam e desciam — uns acompanhando e outros saindo a receber sua Rainha. E, no alto dela, Deus a aguardava para admiti-la como Filha e Esposa; e Ela reconheceu, pelos efeitos de Seu amor, que verdadeiramente aquele era a casa de Deus e a porta do Céu.

A oração da Divina Menina

Quando a divina Menina Maria, despedindo-se de seus pais, ficou no templo para ali viver, sua mestra Ana mostrou-lhe o retiro que lhe correspondia entre as demais virgens. 

A Princesa do Céu prostrou-se por terra e, lembrando-se de que era o chão do templo, beijou-o e adorou ao Senhor, agradecendo-Lhe por aquele novo benefício, e agradeceu à própria terra por tê-la recebido e sustentado, ela que se considerava indigna de pisá-la e nela permanecer.

Sentindo uma virtude superior que a movia forte e suavemente, elevando-a em ardente êxtase, escreveu a monja espanhola que o Altíssimo ordenou aos Serafins que assistiam Maria Santíssima que iluminassem sua alma e a preparassem. 

Foi-lhe dado um lume divino para proporcionar suas potências ao objeto que desejava manifestar-lhe. Assim preparada, acompanhada de seus santos Anjos, envolvida numa nuvem refulgente, a divina Menina foi levada em corpo e alma ao Céu empíreo, onde foi recebida pela Santíssima Trindade com benevolência. 

Prostrou-se com humildade e reverência diante da presença do Senhor onipotente. E novamente foi iluminada com outro lume, pelo qual viu a Divindade intuitiva e claramente — sendo esta a segunda vez que tal visão lhe era concedida, aos três anos de idade.

A Santíssima Menina conheceu grandes mistérios nessa visão da Divindade, porque o objeto é infinito; e ainda que já lhe tivesse sido mostrada antes, sempre resta infinito a ser comunicado.

A santíssima Menina fez então o voto de castidade e, sem se obrigar nos demais, renunciou interiormente a todo afeto por coisas criadas e propôs obedecer a todas as criaturas por amor a Deus. E no cumprimento desses propósitos foi mais fiel e fervorosa que todos os que por voto o prometeram. A visão intuitiva cessou, mas não foi logo restituída à terra: no céu teve ainda uma visão imaginária, que sucedeu à visão da Divindade.

Nessa visão imaginária alguns Serafins aproximaram-se dela e, por ordem de Deus, adornaram-na desta maneira: seus sentidos foram iluminados por um clarão gracioso; depois vestiram-na com uma túnica refulgente; cingiram-na com um cinto de pedras preciosíssimas que simbolizavam as heroicas virtudes de sua alma; colocaram-lhe ao pescoço um colar com três pedras — fé, esperança e caridade; deram-lhe sete anéis belíssimos, colocados pelo Espírito Santo, como prova de Seus dons; e a Santíssima Trindade coroou-a com uma coroa imperial, constituindo-a Esposa e Imperatriz do Céu. Suas vestes traziam inscrito em ouro:

Maria, Filha do Pai Eterno, Esposa do Espírito Santo e Mãe da verdadeira Luz.

A última designação ela não entendeu, mas os anjos sim. E saiu do trono divino uma voz que lhe disse:

Nossa Esposa, querida e escolhida entre as criaturas serás por toda a eternidade; os anjos te servirão e todas as nações te chamarão bem-aventurada.

Terminados os adornos, celebrou-se o desponsório mais alto que pôde imaginar qualquer serafim: Deus a tomou por Esposa única e a elevou à mais sublime dignidade possível a pura criatura, para nela depositar futuramente Sua Divindade na Pessoa do Verbo.

Ensinamentos de Nossa Senhora

Assim termina o relato da Venerável Maria de Ágreda, com a doutrina que lhe teria ensinado a Santíssima Virgem sobre essas visões:

Cumpri perfeitamente tudo quanto propus diante do Senhor: nunca olhei o rosto de homem algum — nem mesmo o de meu esposo São José — nem dos anjos quando apareciam em forma humana; em Deus via e conhecia a todos. Criatura alguma tive afeto humano ou inclinação própria. O Altíssimo governou minha alma em tudo, ou diretamente ou pela santa obediência.
Não ignores, minha filha, que o estado religioso é sagrado e ordenado pelo Altíssimo para conservar a doutrina da perfeição cristã e a imitação da vida santíssima de meu Filho. Por isso mesmo Ele está indignadíssimo com religiosas que dormem esquecidas de tão grande benefício e vivem descuidadas, mais relaxadas que muitos mundanos. A essas espera juízo mais severo. 
O demônio usa de maior diligência e astúcia para tentar religiosos, e quando os derruba, convoca todo o inferno para impedir que se levantem com os remédios que a religião oferece: obediência, exercícios santos, sacramentos. Usa de mil artifícios para que nada dê fruto. E isso se vê nos movimentos e obras de uma alma religiosa que defende suas próprias relaxações, justificando-as, se puder, ou caindo em desobediências e culpas maiores.
Adverte, pois, minha filha, e teme tão terrível perigo; com a graça divina esforça-te por sobrepor-te a ti mesma, sem permitir afeto desordenado algum. Trabalha em morrer às tuas paixões e espiritualizar-te, para que, extinto em ti tudo o que é terreno, vivas como anjo na terra. Para seres esposa de Cristo, deves sair dos limites do mero ser humano e ascender a um estado mais alto e divino. És terra, mas deves ser terra bendita, sem espinhos de paixões, cujo fruto seja todo para o Senhor, teu dono. Se tens por esposo o supremo Rei, não voltes os olhos nem o coração aos escravos humanos; pois até os anjos te respeitam como esposa do Altíssimo. Imita-me em tudo quanto te for possível e admoesta tuas religiosas a fazer o mesmo.

Se não estamos na religião, podemos de outro modo tomar proveito dessas santas admoestações da Virgem Santíssima, pois em outro lugar Ela ensinou que devemos fazer de nosso coração uma cela de mosteiro, para nele nos retirarmos com assiduidade.

Quanto aos votos religiosos, nem mesmo a Rainha dos Céus pôde fazê-los todos enquanto era viandante como nós. Imitemo-La em suas santas disposições e vontade de viver os conselhos evangélicos, ainda que não sob a gravidade dos votos.

Referências:

María de Jesús de Ágreda. Mistica Ciudad de Dios: Vida de Maria. Madrid: Fareso, 1970.

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