
Muitas pessoas rezam, mas também muitas pessoas reclamam que Deus não as atende. Pode vir, então, uma pergunta: será que Deus está ouvindo minha oração?
“Quem reza”, diz Santo Afonso, “se salva; e quem não reza, certamente se condena.” Mas perseverar na oração pode ser difícil. Somos seres humanos e não gostamos de coisas difíceis. De fato, a oração pode ser a coisa mais difícil do mundo.
Há pessoas que acham que monges e freiras são preguiçosos porque “passam o dia inteiro rezando”, como se não fizessem nenhum trabalho de verdade. Porém, essas pessoas não durariam um mês em num convento ou mosteiro. Não sabemos o que é um trabalho de verdade até perseverarmos na vida de oração.
Pense em quantas outras coisas as pessoas encontram para fazer em vez de rezar. Elas não querem fazer algo difícil. Mas isso não significa que a oração seja sempre difícil ou que tenha que ser. Esse é um dos truques do diabo: ele tenta nos fazer pensar que rezar é difícil demais.
Mesmo que fosse verdade, sabemos que as coisas difíceis valem mais. Rezar quando é mais difícil talvez seja o melhor momento do mundo para rezar. Na verdade, esses momentos podem ter sido enviados a nós pelo próprio Deus. E por quê? Por que Deus enviaria dificuldades na oração ou em qualquer outro momento? Para purificar o nosso amor.
Ele nos envia dificuldades na oração — ou em qualquer parte da vida — para nos fortalecer, purificar nosso amor e manter-nos vigilantes.
O que significa purificar nosso amor? Significa que Deus quer tirar a consolação por um tempo para garantir que O amamos, e não simplesmente a alegria que Ele dá. Ele é Deus e sabe onde está realmente o nosso amor; mas nos prova para o nosso próprio bem.
Quando a oração está difícil, devemos nos esforçar para rezar ainda mais que antes. Devemos rezar com mais fervor do que nunca e rezar por mais tempo do que desejamos. Assim mostramos a Deus — e a nós mesmos — que realmente O amamos por Ele mesmo, e não apenas pelas consolações que recebemos. Pode ser uma grande lição de humildade perceber que o que amamos é apenas o prazer sensível da oração, e não a oração em si.
É precisamente nessa luta que devemos lembrar o que ensina Santo Tomás de Aquino sobre a eficácia da oração.
Ele descreve quatro requisitos que tornam uma oração impetratória (isto é, certa de obter aquilo que pede) infalível.
Primeiro, a oração deve ser feita por nós mesmos, pois somente em nós não existe obstáculo externo à graça pedida.
Segundo, deve pedir bens necessários à salvação; aqueles que Deus sempre deseja conceder — como a graça, o perdão dos pecados, a caridade, a perseverança.
Terceiro, deve ser feita com piedade, isto é, com humildade e devoção interiores, porque Deus ouve o coração antes das palavras.
Quarto, deve ser feita com perseverança, sem desistir, pois Deus concede no tempo oportuno aquilo que pedimos com constância.
Os tempos difíceis não somente purificam a nossa caridade, mas a tornam mais forte.
De que adianta a um halterofilista levantar pesos leves e nunca suar? De nada. Ele pode manter algum tônus muscular, mas não ficará mais forte sem esforço. Podemos, então, alegrar-nos com os tempos difíceis: são oportunidades de crescer em força e virtude, de provar nosso amor. Não procure tempos difíceis — Deus cuidará disso. Mas, quando vierem, alegre-se com a chance de fazer grande progresso. Tudo, no fim, é para o nosso bem, para fortalecer o amor. Deus sabe o que faz e não vai nos esmagar. Ele sabe quanto podemos suportar.
Deus também nos dá tempos difíceis para que não esqueçamos que esta vida é uma guerra espiritual. O soldado que adormece no campo de batalha logo se torna uma vítima. As dificuldades nos mantêm vigilantes, impedem que fiquemos preguiçosos nos tempos fáceis e garantem que estejamos sempre prontos para lutar.
Se os tempos difíceis vêm de Deus, isso é maravilhoso: aproveite-os. Se vêm do diabo, então Deus claramente está permitindo, e isso também é maravilhoso, porque Ele continua sabendo o que faz.
Muitas vezes, porém, caímos em outro truque do diabo, que pode ser realmente prejudicial à vida de oração: a tentação de fazer tudo sozinhos.
Há ao menos quatro pessoas envolvidas sempre que rezamos: nós e Deus (Santíssima Trindade). Um dos problemas é que tendemos a focar demais em nós mesmos, até na oração. É parte da nossa natureza decaída: somos individualistas mesmo quando falamos com Deus.
Se há ao menos quatro pessoas envolvidas, e a Santíssima Trindade é claramente mais importante, então precisamos prestar mais atenção em Deus e permitir que faça o bem que deseja fazer em nós.
Se estamos sempre focados em nós mesmos, provavelmente passamos o tempo todo na oração dizendo e fazendo um monte de coisas boas: pensando em como Deus é grande, como somos miseráveis e pecadores, como precisamos disto ou daquilo, como temos medo, como merecemos o inferno, como somos gratos, como Deus é bondoso, como nós O amamos, como lamentamos nossos pecados. Tudo isso é bom, mas chega um momento na oração em que é preciso deixar Deus falar.
Nesses momentos, o que precisamos é de uma imagem mental silenciosa, sem dizer ou fazer nada na mente ou na alma. São Francisco de Sales afirma que a maior oração é pedir o amor de Deus. Pedimos, e depois aceitamos em silêncio e paz.
Não podemos tomar esse amor à força; não podemos fazê-lo acontecer. Só podemos pedir e, então, permanecer quietos para recebê-lo. É um grande ato de humildade. É aqui que conhecemos e amamos a Deus em Si mesmo, e não apenas em nossas palavras e pensamentos.
A meditação exige recolhimento. Recolhimento significa uma certa paz do coração e da alma que nos permite estar mais conscientes da presença de Deus e unidos a Ele. Mas recolhimento não significa apenas eliminar barulhos externos; essas coisas ajudam, mas o recolhimento é interior — na mente, no coração, na alma.
Todos os pensamentos santos são bons, mas é preciso permitir um tempo de silêncio interior. Não esteja sempre dizendo ou fazendo algo. Há mais pessoas envolvidas na sua oração: deixe que Deus faça alguma coisa. O amor que Ele derrama em nós nos levará a um amor maior por Ele como Ele realmente é, e não apenas como O pensamos ou descrevemos.
Devemos, sim, trabalhar na oração, mas também deixar Deus trabalhar. Alguns minutos de oração recolhida e silenciosa, onde Deus age, valem mais do que dias de oração ativa e barulhenta, onde fazemos tudo sozinhos. Lembre-se: é Ele quem dá o aumento da caridade. Amar a Deus é uma grande coisa; mas ser amado por Deus é maior ainda.
Importa sempre rezar e nunca desistir. (Lc 18)
Santo Tomás de Aquino. The Summa Theologiæ of St. Thomas Aquinas. 2. ed. rev. 1920. Online Edition by Kevin Knight. Disponível em: https://www.newadvent.org/summa/.