
A palavra eremita vem do grego erēmitēs, que significa “habitante do deserto”. Santo Antão (forma apocopada de “Antônio”) foi o primeiro eremita da Igreja, mas não o primeiro a habitar no deserto. Temos santos conhecidos, como Elias e João Batista, por exemplo, que também viveram no deserto.
Aqui falamos de um novo modo de vida, passadas as perseguições do Império Romano e o ideal difundido do martírio. Santo Antão nasceu no Egito, por volta do ano 251, em uma região rural marcada por costumes simples e por uma fé cristã já firmemente estabelecida. Seus pais, proprietários de terras e sinceramente piedosos, educaram o filho no temor de Deus e no apreço pela vida recolhida. Desde a juventude, Antão demonstrava inclinação ao silêncio, à reflexão e à oração, evitando espontaneamente as distrações comuns à sua idade.
O momento determinante de sua vida ocorreu quando, ainda jovem, ouviu na igreja a leitura do Evangelho em que Cristo convida o homem rico a vender tudo, dar aos pobres e segui-lo. Antão recebeu essas palavras com inteira seriedade, entendendo que se dirigiam diretamente a ele. Em consequência, distribuiu seus bens, assegurou o futuro da irmã e decidiu retirar-se para uma vida de solidão consagrada a Deus, atitude que marcou o início de uma nova etapa na história espiritual da Igreja.
Nos anos iniciais de sua vida ascética, Antão permaneceu nas proximidades de sua aldeia, buscando aprender com outros servos de Deus que já viviam em retiro. Destaca-se aqui a prudência do santo já nesse período, no qual Antão avançava gradualmente na mortificação do corpo e na disciplina do espírito, sempre atento à humildade e à perseverança.
Com o tempo, retirou-se para lugares cada vez mais afastados, primeiro para sepulcros abandonados e depois para regiões mais profundas do deserto. Sua vida era regulada por longas horas de oração, trabalho manual e jejum rigoroso. A solidão exterior favorecia o combate interior, e Antão aprendia a discernir os movimentos da alma com grande lucidez espiritual. Essa etapa consolidou sua fama de homem inteiramente entregue a Deus, cuja constância impressionava todos os que dele se aproximavam.

As tentações que grave e intensamente assolavam a Antão revelam a intensidade da luta que ele travava no silêncio do deserto. Ele enfrentava o medo, o desalento e as sugestões do inimigo com oração perseverante e confiança absoluta na providência divina.
Uma das primeiras e mais insistentes provações de Santo Antão foi a tentação contra a castidade. O demônio suscitava lembranças de sua vida anterior, imagens sensíveis e pensamentos desordenados, procurando agitar a imaginação e enfraquecer sua decisão de viver em continência perfeita.
Outra tentação recorrente foi a acídia, isto é, o abatimento interior, a tristeza sem causa aparente e a sensação de inutilidade da vida solitária. Antão era levado a questionar o sentido de sua permanência no deserto, sentindo o peso da solidão, do silêncio e da repetição dos dias. A tradição monástica reconhece essa tentação como uma das mais perigosas, pois não se manifesta de forma violenta, mas como cansaço da alma.
A hagiografia relata também tentações de caráter mais dramático, nas quais os demônios apareciam sob formas de feras, monstros ou figuras ameaçadoras. Em determinado momento, Santo Antão foi fisicamente atacado, espancado e deixado quase morto dentro de uma tumba abandonada.
Após vencer muitas provações, Santo Antão enfrentou a tentação mais sutil: o orgulho espiritual. Os demônios procuravam exaltá-lo interiormente, sugerindo-lhe que se considerasse superior aos outros homens ou já plenamente santo. Antão reagia atribuindo tudo à graça de Deus e lembrando constantemente sua própria fragilidade, ensinando que nenhuma vitória espiritual é segura sem humildade.
Essas lutas, longe de o tornarem instável, deram-lhe grande firmeza de caráter. Sua reputação espalhou-se pelo Egito, e muitos passaram a procurá-lo em busca de conselho e direção espiritual. Antão acolhia essas visitas com caridade e discernimento, oferecendo palavras simples, diretas e profundamente enraizadas na Escritura. Sua autoridade provinha da coerência entre vida e doutrina, aspecto que o tornou referência segura em um tempo de confusão e perseguições recentes.
Já em idade avançada, Santo Antão retirou-se novamente para maior solidão, deixando discípulos formados e espiritualmente amadurecidos. Mesmo afastado, manteve viva preocupação com a fé da Igreja, apoiando explicitamente Santo Atanásio na defesa da doutrina contra o arianismo.
Santo Antão morreu por volta do ano 356, após uma vida longa e inteiramente orientada para Deus. Seu sepultamento em local desconhecido correspondeu ao desejo de permanecer oculto aos olhos do mundo. Seu legado principal consiste no exemplo de uma vida cristã levada às últimas consequências, fundada na renúncia, na vigilância interior e na fidelidade absoluta à fé da Igreja. Seu nome permanece ligado ao nascimento do monaquismo e à figura do eremita que, pelo silêncio e pela oração, contribuiu decisivamente para a edificação espiritual da Igreja Católica.
Pe. Alban Butler. The Lives of the Saints, Benziger Bros, 1894.
Pe. João Batista Lehmann. Na luz perpétua. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1953.
Dom Prosper Guéranger. The Liturgical Year. 15 v. Loreto Publications, 2000.