Doutrina
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24.11.2025

O Purgatório existe? A doutrina de Santo Tomás de Aquino

PL
Equipe do Padre Leonardo Wagner
Formação Católica

Ao longo da história da Igreja, muitos erros nasceram de tentativas bem-intencionadas de evitar outros erros. Assim como o bispo Ário caiu no extremo oposto ao tentar combater Sabélio, e Eutiques escorregou para o erro contrário ao enfrentar Nestório, algo semelhante aconteceu com aqueles que, ao rejeitar a doutrina equivocada de Orígenes — segundo a qual todas as penas após a morte seriam apenas purificadoras — acabaram concluindo, injustamente, que não haveria purificação nenhuma depois da morte.

A Igreja, porém, fiel à verdade recebida dos Apóstolos, evita ambos os extremos. Ela rejeita a ideia de que todos serão purificados no fim, como queria Orígenes; mas rejeita igualmente a negação de qualquer purificação pós-morte.

A fé católica sempre ensinou duas verdades inseparáveis: há penas eternas para quem morre em pecado mortal, e há penas purificadoras para quem morre na graça, mas ainda com imperfeições.

O inferno

Santo Tomás, seguindo a tradição dos Padres da Igreja, explica que o “inferno” (inferi, os “lugares inferiores”) é dividido em quatro lugres distintos: o limbo dos patriarcas (limbus patrum), o limbo dos infantes (limbus puerorum), o purgatório e o inferno dos condenados.

No limbo dos patriarcas estavam as almas justas do Antigo Testamento — Abraão, Moisés, Davi e tantos outros — que aguardavam a Redenção, impedidas de entrar no Céu antes de Cristo. Ali não havia sofrimento, mas apenas a pena de dano temporária, pois ainda não podiam contemplar a Deus. Após a vitória de Cristo, essa região deixou de ser habitada, já que o Senhor “levou cativo o cativeiro”.

O limbo dos infantes, por sua vez, é destinado às crianças que morrem antes do uso da razão. Não tendo pecado pessoal, não podem sofrer o castigo do inferno dos condenados; mas, por não terem recebido a graça santificante do Batismo, permanecem privadas da visão beatífica. Vivem, porém, uma felicidade natural, proporcionada ao estado em que se encontram.

O purgatório é um estado temporário de purificação. Todas as almas que ali se encontram estão destinadas ao Céu; a purificação existe justamente para que possam entrar plenamente na presença de Deus. Sofrem penas semelhantes às do inferno dos condenados, mas de maneira temporária e ordenadas ao amor.

Já o inferno dos condenados é o lugar de tormento eterno, onde estão os demônios e as almas que morreram em estado de pecado mortal. Ali se sofre a pena de dano, que é a separação eterna de Deus, e também as penas dos sentidos, proporcionais às obras praticadas.

A Sagrada Escritura fala com clareza sobre essa realidade. Cristo conta que o rico morreu e “foi sepultado no inferno”, onde confessa: “estou atormentado nesta chama” (Lc 16,22–24). Jó testemunha a mesma verdade: “em um momento descem à morada dos mortos” (Jó 21,13). E o Antigo Testamento menciona que, antes de Cristo, os justos desciam ao “seio de Abraão”. Por isso Jacó disse: “descerei a meu filho no inferno” (Gn 37,35). O próprio Cristo desceu aos infernos, não por dívida de pecado, mas para libertar os justos que ali aguardavam.

"O Céu é logo"

A misericórdia de Deus é maior que todas as suas obras. Assim, as almas que morrem sem pecado mortal e sem qualquer mancha recebem imediatamente o prêmio eterno. São Paulo afirma: “Quando esta casa terrestre se dissolver, teremos de Deus uma edificação eterna nos céus” (II Cor 5,1). 

Em outro lugar, escreveu: “Desejo partir para estar com Cristo” (Fl 1,23). O desejo do Apóstolo não se cumpriria se ele não recebesse a visão beatífica logo após sua morte. Cristo também promete ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). Portanto, a visão de Deus não é sempre adiada até a ressurreição final.

O Purgatório

O Espírito Santo é inequívoco ao dizer que nada impuro entra na glória (Ap 21,27), que “nada de manchado se aproxima da Sabedoria” (Sb 7,25), e que “a estrada santa… por ela não passará nenhum impuro” (Is 35,8). 

Ora, poucas pessoas morrem totalmente purificadas. Há pecados veniais, negligências, apegos desordenados. Esses não condenam ao fogo eterno, mas impedem o ingresso imediato na visão beatífica. Não seria conforme à justiça — nem à misericórdia divina — que tais almas tivessem de esperar até o fim dos tempos, sujeitas ao fogo eterno, por faltas leves. A doutrina do Purgatório preserva o equilíbrio entre a justiça e a misericórdia de Deus.

A realidade do Purgatório decorre de três pontos fundamentais. 

Primeiro, a existência dos pecados veniais: quem morre com pequenas faltas não será condenado, mas precisa ser purificado. 

Segundo, as penas devidas por pecados já perdoados: muitas pessoas se arrependem sinceramente, mas não cumprem toda a penitência necessária nesta vida; essa dívida precisa ser quitada de algum modo. 

Terceiro, desde os tempos apostólicos a Igreja reza pelos mortos, o que seria inútil se todos os falecidos estivessem no Céu ou no inferno. Portanto, deve existir um estado intermediário em que as almas podem ser ajudadas.

São Paulo ensina que “o fogo provará a obra de cada um… Se a obra se queimar, sofrerá dano; mas ele será salvo, como que através do fogo” (I Cor 3,13–15). Esse fogo não pode ser o do inferno, pois o Apóstolo afirma claramente que a pessoa “será salva”. Trata-se, portanto, de um fogo purificador, não condenatório.

Conclusão

A partir da Sagrada Escritura, da Tradição e da reflexão teológica, a conclusão é clara: o Purgatório existe. 

Ele manifesta, ao mesmo tempo, a misericórdia, a justiça e a esperança. É misericórdia, porque salva as almas ainda manchadas; é justiça, porque completa o que faltou nesta vida; e é esperança, porque garante que os fiéis, uma vez purificados, entrarão na glória eterna.

O Purgatório não diminui a obra redentora de Cristo; ao contrário, é um fruto dela, pois é o Sangue do Cordeiro que purifica até que sejamos dignos de entrar na Jerusalém Celeste.

Rezemos pelas santas almas do Purgatório, para que sejam aliviadas de suas penas; e façamos penitência para que não aconteça que também nós caiamos nesse fogo purificador, mas que sejamos trasladados diretamente com o Apóstolo para a glória eterna.

Referências:

Santo Tomás de Aquino. The Summa Theologiæ of St. Thomas Aquinas. 2. ed. rev. 1920. Online Edition by Kevin Knight. Disponível em: https://www.newadvent.org/summa/.

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