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Doutrina
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27/8/2025

Concupiscência: o que é e como resistir a ela

Equipe do Padre Leonardo Wagner

Vimos em dois artigos antecedentes que os três principais efeitos do pecado original são a fraqueza na vontade, o obscurecimento do intelecto e a inclinação para o mal (Summa Theologiæ, I-IIæ, q. 85, a. 3).

O terceiro efeito que queremos abordar é a inclinação para o mal. Esta é uma realidade que todos herdamos por causa do pecado de Adão e Eva.

Definição

Essa forte inclinação para o mal que permanece em nós consiste nos esforços contínuos de nossos sentidos e apetites para conduzir nossa alma ao pecado. 

Em outras palavras, há em nossas faculdades inferiores uma inclinação para nos arrastar ao pecado. Existe aí uma desordem: o corpo inclinado a rebelar-se contra a alma, e a própria alma inclinada a rebelar-se contra Deus. 

Portanto, trata-se de algo mais amplo do que apenas as faculdades inferiores, pois herdamos também a tendência de querer rebelar-nos contra Deus.

O dom da integridade

Isso está ligado à perda do dom da integridade. O dom da integridade foi um dos dons preternaturais dados a Adão e Eva, para que suas faculdades inferiores permanecessem perfeitamente subordinadas às superiores. Eles nunca teriam apetites ou emoções desordenadas (cf. Summa Theologiæ, I, q.95, a.1).

Quando caíram, como diz Santo Tomás, “o inferior rebelou-se contra o superior” — Adão e Eva, inferiores, rebelaram-se contra seu superior, Deus. Por isso, a pena foi proporcional à culpa: dentro deles, suas faculdades inferiores começaram a rebelar-se contra as superiores e a arrastá-los para o pecado (cf. Summa Theologiæ, I-IIæ, q.82, a.3).

A concupiscência

A forte inclinação para o mal é chamada concupiscência. Deus permite que ela permaneça em nós para que, pela sua graça, possamos resistir a ela e, assim, aumentar nossos méritos. 

Ou seja, Ele permite que soframos essa inclinação para que, ao superá-la, alcancemos um grau mais elevado no céu (cf. Summa Theologiæ, I-IIæ, q. 82, a. 3).

Esses apetites e emoções desordenadas às vezes são chamados de apetites antecedentes, mas não sempre antecedentes, porque existe também os apetites consequentes, que também podem ser desordenados.

  • Apetites antecedentes são emoções ou apetites que surgem em nós contrários à nossa vontade ou antes de termos tempo de refletir — como em uma explosão repentina de raiva (cf. Summa Theologiæ, I-IIæ, q. 24, a. 3).
  • Apetites consequentes são emoções que aparecem após um pensamento. Por exemplo, alguém faz uma ironia disfarçada de elogio; primeiro julgamos superficialmente como se fosse bondade, mas, ao refletir, percebemos a malícia, e disso pode nascer a ira. Em todo caso, é preciso parar de pensar naquilo.

Antes da queda, Adão e Eva não tinham apetites antecedentes, apenas consequentes: suas emoções seguiam inteiramente o intelecto e a vontade.

Nosso Senhor Jesus Cristo e a Santíssima Virgem Maria jamais tiveram apetites antecedentes, apenas consequentes. Isso significa que suas emoções sempre foram perfeitamente subordinadas à razão (cf. Summa Theologiæ, III, q. 15, a. 4). Eles ficavam tristes ou irados sempre na medida justa e de forma proporcional, como lemos nas narrativas evangélicas do choro e da ira de Nosso Senhor.

Santo Tomás acrescenta que, às vezes, as paixões antecedentes podem coincidir com a verdade, mas nunca devem ser seguidas sem antes o julgamento da razão. Se seguimos apenas as paixões, a inteligência e a vontade tornam-se fracas e escravas das emoções (cf. Summa Theologiæ, I-IIæ, q. 24, a. 3).

Essas paixões podem ser tão fortes que afetam nossas escolhas. Para escolhermos livremente, precisamos de reflexão suficiente e consentimento da vontade.

O intelecto humano depende dos fantasmas da imaginação para julgar. Quando os apetites desordenados perturbam essas imagens, por consequência, atrapalham o julgamento da razão (cf. Summa Theologiæ, I, q. 84, a. 7). É por isso que nas escolas de advocacia se ensina a nunca advogar em causa própria, e é também por isso que precisamos pedir conselho antes de tomar decisões importantes.

Por isso, muitas vezes, o irado julga a situação como mais grave do que realmente é; ou, pelo contrário, alguém sem emoção suficiente julga como irrelevante algo que mereceria atenção. Em ambos os casos, a verdade é distorcida.

Como superar a concupiscência?

  1. Pelas virtudes morais: prudência (no intelecto), justiça (na vontade), fortaleza e temperança (nas faculdades inferiores). Ao adquirir virtudes, as paixões passam a obedecer à razão. Quando alguém alcança a perfeição em uma virtude (por exemplo, a mansidão), suas emoções não se movem até que a razão julgue que devem mover-se (cf. Summa Theologiæ, I-IIæ, q. 55, a. 4).
  2. Pela graça: a graça ilumina o intelecto e convida a vontade, ajudando a resistir às paixões (cf. Summa Theologiæ, I-IIæ, q. 109, a. 8).
  3. Pelos dons do Espírito Santo: sobretudo o Temor do Senhor, que nos desapega das coisas criadas e, assim, acalma as paixões; mas também a Fortaleza e a Piedade são de grande ajuda (cf. Summa Theologiæ, I-IIæ, q. 68, a. 4-5).
  4. Pela oração: pela oração obtemos a graça, fortalecemos a alma e elevamos a mente a Deus. Como nossos apetites seguem os fantasmas que ocupam a imaginação, ao rezar, tiramos os objetos terrenos da mente, o que naturalmente acalma as paixões (cf. Summa Theologiæ, II-IIæ, q. 83, a. 2).

Embora não tenhamos causado a desordem herdada do pecado original, todos nós agravamos a situação com nossos pecados atuais. 

Portanto, independentemente da causa, cabe a cada um apresentar sua alma em ordem diante de Deus, pois ninguém verá a Deus permanecendo na desordem.

Referências:

Santo Tomás de Aquino. The Summa Theologiæ of St. Thomas Aquinas. 2. ed. rev. 1920. Online Edition by Kevin Knight. Disponível em: https://www.newadvent.org/summa/.

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