
Em 1893, o Papa Leão XIII instituiu a festa da Sagrada Família. Em 1921, Bento XV colocou-a no Domingo dentro da oitava da Epifania, e no calendário moderno de 1969 ela foi transferida para o Domingo dentro da oitava do Natal.
Pensemos um pouco na Sagrada Família, de modo que nos permita contemplar um aspecto seu particular que seja essencial para todos os matrimônios e para todas as famílias. Ela não é apenas um ideal abstrato, mas uma realidade histórica, ordenada sobrenaturalmente por Deus para servir de arquétipo visível da vida familiar segundo o plano divino.
Falemos primeiramente do chefe da Sagrada Família, São José. Curiosamente, ele era o menos santo dos três (Cristo é o Santo dos Santos, e Maria é a Santíssima Mãe de Deus), mas mesmo assim foi escolhido para ser o protetor, chefe e guia.
A tradição nos diz que, quando São José foi desposado com Nossa Senhora, ele foi confirmado na graça, o que significa que não caiu em pecado mortal. Alguns teólogos entendem que essa confirmação na graça também implica não cair sequer em pecado venial. Como resultado, São José foi o esposo perfeito: teria possuído virtude perfeita, pois jamais teria caído em pecado, e cada ação que realizou teria sido santa e justa.
Assim como a Escritura nos diz, ele era um homem justo. São José recebeu graças proporcionais à sua missão única, sendo purificado e fortalecido por Deus para exercer um senhorio legítimo, prudente e santíssimo sobre a casa de Nazaré. São José é o maior dos santos depois da Virgem Maria, precisamente por causa dessa plenitude de graça ordenada à sua vocação.
Essa confirmação na graça era necessária para que ele pudesse conduzir e dirigir adequadamente Nosso Senhor e Nossa Senhora. Teria sido impróprio ou inadequado que alguém tão perfeito como Nossa Senhora e tão perfeito como Cristo fosse dirigido ou tivesse como cabeça espiritual alguém desordenado.
Deus comunicava a São José luzes especiais para governar a Sagrada Família, e tanto a Virgem Mãe quanto o Menino Jesus se submetiam voluntariamente às suas decisões, reconhecendo nele a autoridade estabelecida pelo Pai Eterno.
São Gabriel disse, na Anunciação, que ela é cheia de graça, e isso significa, evidentemente, que com a graça há também a infusão de todas as virtudes. Assim, Nossa Senhora tinha virtude perfeita; ela foi a esposa perfeita. Era necessário que Maria Santíssima fosse perfeita não apenas para ser um tabernáculo digno de Cristo, que permaneceria em seu seio por nove meses, mas também para que fosse uma Mãe perfeita e trouxesse honra a Cristo.
Não seria possível ou adequado, que Nosso Senhor tivesse uma mãe pecadora, pois ela então o desviaria ou o guiaria de modo errado. Mesmo sendo Imaculada e superior em graça, exercia sua perfeição sobretudo na humildade, obedecendo a São José em tudo o que dizia respeito à ordem doméstica, vendo nessa obediência uma conformidade direta com a vontade divina.
Por fim, Cristo, a fonte de toda a graça e a fonte de toda virtude. Não se pode ser fonte de algo sem, de algum modo, já possuir esse algo; portanto, Cristo possuía virtude perfeita.
Santo Agostinho define a paz como a tranquilidade da ordem. A paz é um efeito do viver corretamente, de uma vida virtuosa. Assim, se uma pessoa tem virtude perfeita, ela terá perfeita paz interior. Da mesma forma, no contexto da família, se há virtude perfeita, haverá ordem perfeita e, portanto, haverá paz. A presença de Cristo na casa de Nazaré não dispensava o exercício da autoridade humana de São José, mas a elevava, mostrando que a graça não destrói a ordem natural, antes a aperfeiçoa.

São José estava ali para a Virgem e para o Cristo, e é claro que ele era corretamente ordenado, pois sempre proveu e protegeu a ambos, algo que parece bastante evidente tanto na Escritura quanto na tradição. Maria é perfeitamente submissa segundo o modo que Deus quis que ela o fosse.
Ainda que Nossa Senhora fosse mais excelente que São José em graça e virtude, ela, contudo, era submissa, porque assim o determinava a ordem divina, porque assim era a vontade divina. Essa submissão de Maria não era meramente exterior, mas interior e amorosa, e São José, por sua vez, exercia sua autoridade com extrema doçura, prudência e reverência, reconhecendo a santidade singular de sua esposa.
Quanto a Cristo, vemos que ele foi submisso a Nossa Senhora e a São José no episódio do encontro no Templo, e a Escritura diz que lhes era submisso (recomendamos ouvir a belíssima antífona da comunhão para essa festa). Cristo lhes prestou honra perfeita; ele é o Filho perfeito — algo que, certamente, a maioria das pessoas gostaria de ter. Essa submissão de Cristo era contínua e cotidiana, não meramente episódica, e que o Menino Jesus se deleitava em obedecer a São José, conferindo-lhe, assim, uma dignidade paternal real e efetiva.
A Sagrada Família, portanto, é o nosso modelo de paz. Se você quer paz na família e se deseja uma certa tranquilidade que emana do lar, então é necessário haver virtude perfeita. Eis por que São José é o modelo para todos os homens, na medida em que, ao se tornarem maridos e pais, devem imitar São José, que exerceu virtude perfeita no cumprimento de seus deveres como pai e esposo. Do mesmo modo, a mãe tem em Nossa Senhora o modelo perfeito de virtude. São José é terror dos demônios precisamente porque sua vida familiar era perfeitamente ordenada a Deus, sendo um antídoto radical contra a desordem moral e espiritual.
Se um pai ou uma mãe tenta assumir a autoridade, a responsabilidade ou os deveres do cônjuge quando não há necessidade suficiente para isso, haverá desordem e conflito entre os pais, e isso afetará os filhos, resultando na falta de paz.
Se você não domina as virtudes em si mesmo, causará perturbações dentro de sua família por causa de seu egoísmo, de sua absorção em si mesmo e de seus próprios vícios. Se você não crescer na graça, todos os outros membros da sua família acabarão pagando o preço. Cada mínima desordem interior repercute na ordem exterior da família.
Portanto, é necessário buscar a perfeição da santidade, que é a excelência na graça e o adorno da alma com todas as virtudes. Essa foi precisamente a vida da Sagrada Família: uma escola viva de santidade doméstica, instituída por Deus para ser modelo perene de todas as famílias cristãs.
Donald H. Calloway. Consagração a São José: as glórias de nosso pai espiritual. São Paulo: Ecclesiae, 2021.
Maria de Jesus de Agreda. Mistica Ciudad de Dios: Vida de Maria. Madrid: Fareso, 1970.