
As Cantigas de Santa Maria são um testemunho da profundidade da devoção mariana na Idade Média. Elas são uma expressão concreta da fé vivida, capaz de revelar como o culto à Virgem Maria ultrapassava o âmbito estritamente teológico e se enraizava na experiência cotidiana dos fiéis. O uso da língua vernácula e da forma musical popular evidencia o caráter também popular dessa devoção, acessível e amplamente difundida entre o povo cristão.
Atribui-se em geral a autoria das 427 Cantigas ao rei Afonso X de Castela e Leão, chamado “o Sábio”. O fato de um soberano dedicar sua inteligência e autoridade à glorificação de Nossa Senhora demonstra a legitimidade e a força dessa piedade mariana. A iniciativa real aparece como um serviço consciente à fé católica, colocando o poder temporal a serviço da exaltação da Mãe de Deus.
Outro aspecto fundamental é o conteúdo das Cantigas, formado por louvores e também relatos de milagres atribuídos à intercessão da Virgem. Esses louvores relatos contêm uma forma narrativa de transmitir verdades centrais da fé, especialmente a mediação universal de Maria Santíssima. Assim, as Cantigas de Santa Maria possuem um valor histórico e religioso singular, pois permitem compreender como a doutrina mariana era assimilada, compreendida e vivida de modo concreto pelos cristãos medievais.
Essa cantiga narra um episódio de intervenção milagrosa de Nossa Senhora para revelar e corrigir um furto cometido dentro de sua própria igreja. Na narrativa, um homem que viajava em romaria rouba dinheiro da bolsa de esmolas de outro peregrino durante a noite. Na manhã seguinte, embora todos consigam sair da igreja após a Missa, o ladrão não consegue fazê-lo até que, sob intervenção da Virgem Santíssima, ele se arrependa, devolva o que roubou e confesse seu erro publicamente.
(Refrão) A Mãe de Jesus Cristo, que é senhora de nobrezas,
Não permite que na sua casa façam furtos nem vilezas.
E sobre isto um grande milagre vos contarei
que homens de boa vida e por verdade me mostraram,
Que fez Santa Maria de Montserrat, e contaram
O que fez um homem vil para mostrar suas vilezas.
Ele veio com muitas pessoas em romaria,
E acolheu-se com outro homem para o qual fez companhia;
E quando chegou a noite, o dinheiro que trazia
Furtou-lhe da esmoleira para crescer em suas riquezas.
No dia seguinte de manhã, depois de ouvirem as Missas,
Os que ali albergaram da igreja saíram;
Mas ele sair não pôde, e isto muitos o viram,
Pois não quis Santa Maria, que está com Deus nas alturas.
Até que bem arrependido fosse e bem manifestado
E tudo quanto furtara houvesse ao outro dado,
E que dissesse ante todos como havia errado,
E saísse com vergonha por suas más astúcias.
Tudo isto assim foi feito, porque o quis a verdadeira
Mãe de Deus piedosa, santa e muito justiceira,
Que não quis que na sua casa fossem de nenhuma maneira
Feitas coisas desajustadas nem cobiças por pobrezas.
A narrativa ensina que a devoção à Virgem Maria exige coerência moral concreta, especialmente no respeito ao que é sagrado. O furto cometido dentro da igreja não é apenas como uma falta social, mas uma ofensa direta à Mãe de Deus em sua própria casa. A intervenção de Maria Santíssima revela que nada permanece oculto diante de sua vigilância maternal e justa. Ao mesmo tempo, a cantiga sublinha que a justiça mariana não é vingativa: o castigo imposto ao ladrão tem finalidade medicinal, conduzindo-o ao arrependimento, à restituição do bem roubado e à confissão pública da culpa. A lição central é que a misericórdia divina se manifesta plenamente quando há reconhecimento do pecado e conversão sincera.
O rei Afonso X utiliza a narrativa como instrumento de formação moral e religiosa do povo cristão, que é um de seus deveres como chefe do povo. Ao mostrar a Virgem como senhora vigilante de seus santuários e defensora da ordem moral, o Sábio reforça a ideia de que a fé católica regula tanto a vida interior quanto os comportamentos públicos.
Promover tal cantiga significa difundir uma pedagogia da responsabilidade, na qual a devoção mariana não é sentimental ou decorativa, mas exige retidão, temor de Deus e respeito às coisas santas. Assim, o rei Sábio serve-se da música e da poesia para educar consciências, fortalecer a piedade popular e consolidar uma visão católica da justiça, onde a correção do erro conduz à restauração moral do indivíduo e do bem comum.
Reuben Parsons. Studies in Church History, 6 v. Philadelphia: John Joseph McVey, 1886.