História da Igreja
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19.01.2026

Tentou fugir após a Missa, mas algo o impediu

PL
Equipe do Padre Leonardo Wagner
Formação Católica

As Cantigas de Santa Maria são um testemunho da profundidade da devoção mariana na Idade Média. Elas são uma expressão concreta da fé vivida, capaz de revelar como o culto à Virgem Maria ultrapassava o âmbito estritamente teológico e se enraizava na experiência cotidiana dos fiéis. O uso da língua vernácula e da forma musical popular evidencia o caráter também popular dessa devoção, acessível e amplamente difundida entre o povo cristão.

Atribui-se em geral a autoria das 427 Cantigas ao rei Afonso X de Castela e Leão, chamado “o Sábio”. O fato de um soberano dedicar sua inteligência e autoridade à glorificação de Nossa Senhora demonstra a legitimidade e a força dessa piedade mariana. A iniciativa real aparece como um serviço consciente à fé católica, colocando o poder temporal a serviço da exaltação da Mãe de Deus.

Outro aspecto fundamental é o conteúdo das Cantigas, formado por louvores e também relatos de milagres atribuídos à intercessão da Virgem. Esses louvores relatos contêm uma forma narrativa de transmitir verdades centrais da fé, especialmente a mediação universal de Maria Santíssima. Assim, as Cantigas de Santa Maria possuem um valor histórico e religioso singular, pois permitem compreender como a doutrina mariana era assimilada, compreendida e vivida de modo concreto pelos cristãos medievais.

Cantiga n. 302

Essa cantiga narra um episódio de intervenção milagrosa de Nossa Senhora para revelar e corrigir um furto cometido dentro de sua própria igreja. Na narrativa, um homem que viajava em romaria rouba dinheiro da bolsa de esmolas de outro peregrino durante a noite. Na manhã seguinte, embora todos consigam sair da igreja após a Missa, o ladrão não consegue fazê-lo até que, sob intervenção da Virgem Santíssima, ele se arrependa, devolva o que roubou e confesse seu erro publicamente.

Tradução em português

(Refrão) A Mãe de Jesus Cristo, que é senhora de nobrezas,

Não permite que na sua casa façam furtos nem vilezas.

E sobre isto um grande milagre vos contarei 

que homens de boa vida e por verdade me mostraram,

Que fez Santa Maria de Montserrat, e contaram

O que fez um homem vil para mostrar suas vilezas.

Ele veio com muitas pessoas em romaria,

E acolheu-se com outro homem para o qual fez companhia;

E quando chegou a noite, o dinheiro que trazia

Furtou-lhe da esmoleira para crescer em suas riquezas.

No dia seguinte de manhã, depois de ouvirem as Missas,

Os que ali albergaram da igreja saíram;

Mas ele sair não pôde, e isto muitos o viram,

Pois não quis Santa Maria, que está com Deus nas alturas.

Até que bem arrependido fosse e bem manifestado

E tudo quanto furtara houvesse ao outro dado,

E que dissesse ante todos como havia errado, 

E saísse com vergonha por suas más astúcias.

Tudo isto assim foi feito, porque o quis a verdadeira

Mãe de Deus piedosa, santa e muito justiceira,

Que não quis que na sua casa fossem de nenhuma maneira

Feitas coisas desajustadas nem cobiças por pobrezas.

Moral da história

A narrativa ensina que a devoção à Virgem Maria exige coerência moral concreta, especialmente no respeito ao que é sagrado. O furto cometido dentro da igreja não é apenas como uma falta social, mas uma ofensa direta à Mãe de Deus em sua própria casa. A intervenção de Maria Santíssima revela que nada permanece oculto diante de sua vigilância maternal e justa. Ao mesmo tempo, a cantiga sublinha que a justiça mariana não é vingativa: o castigo imposto ao ladrão tem finalidade medicinal, conduzindo-o ao arrependimento, à restituição do bem roubado e à confissão pública da culpa. A lição central é que a misericórdia divina se manifesta plenamente quando há reconhecimento do pecado e conversão sincera.

O rei Afonso X utiliza a narrativa como instrumento de formação moral e religiosa do povo cristão, que é um de seus deveres como chefe do povo. Ao mostrar a Virgem como senhora vigilante de seus santuários e defensora da ordem moral, o Sábio reforça a ideia de que a fé católica regula tanto a vida interior quanto os comportamentos públicos. 

Promover tal cantiga significa difundir uma pedagogia da responsabilidade, na qual a devoção mariana não é sentimental ou decorativa, mas exige retidão, temor de Deus e respeito às coisas santas. Assim, o rei Sábio serve-se da música e da poesia para educar consciências, fortalecer a piedade popular e consolidar uma visão católica da justiça, onde a correção do erro conduz à restauração moral do indivíduo e do bem comum.

Referências:

Reuben Parsons. Studies in Church History, 6 v. Philadelphia: John Joseph McVey, 1886.

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